Fabiana Lopes Coelho Fabiana Lopes Coelho

Na aula de revolução.*

“No quarto desmascaramento, indiquei a singular dupla estrutura do saber marxista: é um composto de uma teoria emancipadora e de uma teoria reificadora. A reificação caracteriza aquele saber que aspira a dominar as coisas. Nesse sentido, o saber marxista era desde o início um saber de dominação.

(…)

Foi desde sempre um diktat demasiado rigoroso da “linha justa”. Desde sempre, destruiu irascivelmente toda e qualquer alternativa prática. Desde sempre, declarou à consciência das massas: «Sou o teu mestre e o teu libertador, não terás outro libertador senão eu! Toda e qualquer liberdade que vás buscar a outro lado é um desvio pequeno-burguês».

(…)

Marx transmutou-se em professor histórico-lógico e em protector do proletariado, que identificava como o aluno predestinado da sua teoria. Queria tornar-se o seu grande libertador, intervindo como professor do movimento operário na marcha da história europeia.

(Stirner representava nada mais do que a alternativa lógica e estratégica à solução marxista).

A célebre obra póstuma Ideologia Alemã é, em grande parte, um ataque contra Stirner, que Marx e Engels conduziram com uma verve nunca utilizada relativamente a um só pensador.

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Stirner pertence, tal como Marx, a essa geração da Jovem Alemanha que, no clima da filosofia hegeliana, com a sua formação na reflexão subversiva, desenvolvera um faro extraordinário por tudo o que «se passa na cabeça».

(…)

Digamos cruamente: na cabeça dos seres humanos trabalham programas de pensamento e de percepção que são historicamente formados e que «mediatizam» tudo o que vai do exterior para o interior e do interior para o exterior. O aparelho humano do conhecimento é, de certa maneira, um relé interior, um posto de comando, um transformador, onde são programados esquemas de perceção, formas de juízo e estruturas lógicas. A consciência concreta nunca é algo de imediato, é mediatizada pela «estrutura interna».

Por princípio, a reflexão pode assumir três atitudes relativamente a essa estrutura interna recebida: pode tentar escapar-lhe «desprogramando-se»; pode mover-se nela tão desperta quanto possível; e, enquanto reflexão, pode abandonar-se-lhe, apostando na tese segundo a qual a estrutura é tudo. (…)

A ideia de Stirner é evacuar muito simplesmente a cabeça de todas as programações estranhas. (…). Stirner visa libertar o seu próprio interior da alienação. O elemento estranho instala-se em mim; reconquisto-me a «mim próprio» expulsando o elemento estranho. É possível ler centenas de páginas em que Marx e Engels se enervam ante esta ideia no fim de contas simples.

(…)

Muito cedo, o mais tardar desde a sua polémica contra Stirner, surge no pensamento de Marx uma tendência para, quase na atitude de um jesuíta da revolução, ele próprio se prender ao processo da evolução histórica, que ele julga poder conhecer tanto como dominar. A teoria marxista espera aceder à dominação estabelecendo o sujeito da teoria como função da evolução. Julga poder conseguir dominar a história por auto-reificação. Fazendo-se instrumento do pretenso futuro, pensa poder fazer do futuro o seu próprio instrumento.”

Peter Sloterdijk, em Crítica da Razão Cínica.

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Humanismo.

Sempre que há uma catástrofe humana, as redes sociais impregnam-se de frases muito belas. No outro dia, apareceu-me uma que me afectou profundamente: "Vejo humanos mas não vejo humanidade”. E lembrei-me logo do meu professor do secundário que uma vez me disse que devia ser “mais humana”, em resposta a uma observação minha que dizia que “não andava aqui para libertar a humanidade da opressão. Quanto muito, aliviava a dor de cabeça do meu colega de carteira porque tinha trazido um ben-u-ron.”

“Agora, aliviar todas as dores de cabeça deste mundo?”. “Mesmo que quisesse”, disse-lhe, “que não é claramente o caso, não ia conseguir, porque o que cria dores de cabeça a uns, não cria a outros. E eliminar uma causa de dor de cabeça de uns, ia dar muitas dores de cabeça a outros. Por isso, em vez de ter a pretensão de saber e querer eliminar as dores de cabeça de toda a “humanidade”, resolvo as minhas e as do colega do lado. Pode ser que outros, ao verem como resolvi a minha, resolvam também a deles, se quiserem. Valha-me obrigá-los a resolver aquilo que eu acho que são as dores de cabeça deles! Inclusivamente, professor, sei de muita gente que precisa da dor de cabeça. Li, anteontem, que há muitos escritores que não conseguem escrever sem ela. Nos dias sem dor de cabeça, vão para a praia e põem-se a namorar. Além disso, nos dias seguintes à inactividade intelectual, ficam com uma grande dor de cabeça provocada pela frustração de não avançarem no trabalho.

E quem é que define o que é ser “mais humana”? É o professor? E se eu achar que sou mais humana por não querer que todos os “humanos” sigam a minha ideia de “humanidade”?

Já o estou a ver num alto palanque a recitar o novo “código da humanidade” e a selecionar quem fica de fora das determinações específicas.“Este não é humano, este é quase humano, este é meio humano.”

Se calhar é por isso que agora vendem tantos comprimidos para as dores de cabeça. Ou porque nunca somos suficientemente humanos ou porque, digo eu, cansamo-nos de ser demasiado humanos”.

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Pensamento crítico ou teoria da conspiração?

Ironia da história: é na era da informação omnipresente e da ciência dos dados que nascem cada vez mais teorias da conspiração. Diz a definição que são discursos críticos sobre o desenvolvimento da História e pressupõem a existência de um grupo de pessoas poderosas que governam o mundo. No dicionário Oxford, é “a crença de que um acontecimento foi planeado secretamente por organizações poderosas”, “com intenção de conseguir ou de esconder algo”, acrescenta o Priberam. Se alongarmos o argumento, não podemos encontrar algumas destas ideias em exercícios intelectuais? Não há grupos de pessoas com poder suficiente para decidir sobre vida de muitas outras? Questionar os métodos e resultados científicos não faz parte da evolução da própria ciência? Não há muito para além dos discursos oficiais, que, independentemente dos motivos, se pretendem secretos? O que distingue uma teoria da conspiração de um pensamento crítico? Para tentarmos responder a estas questões, façamos um exercício filosófico, imaginando o que diriam Platão, Nietzsche e Descartes sobre o tema.

Platão

As teorias da conspiração são ideias falsas às quais estamos acorrentados, como os prisioneiros da caverna. Lembram-se do que escrevi n´ A República? Num diálogo entre Sócrates e Glauco, descrevo uma caverna onde se encontram prisioneiros acorrentados, que apenas conseguem ver sombras. Estando lá desde a infância, e nunca tendo saído, acreditam que as sombras que vêm são a única realidade existente. Quando um é libertado, vê a luz do sol e objetos reais pela primeira vez, doem-lhe os olhos e supõe que são menos verdadeiros do que as sombras. Se decidisse regressar à caverna, e contar o que tinha visto aos outros prisioneiros, diriam que teria desenvolvido problemas de visão, e, se tentasse arrastá-los para fora da caverna, instigando-os a ver os objetos reais, poderiam sentir-se ameaçados e até matá-lo. Trazendo esta alegoria para o presente, podemos dizer que as teorias da conspiração são as sombras, e os prisioneiros são os que acreditam nelas. Os conspiradores não só asseguram que as sombras são reais, como afirmam que quem tem mais conhecimento está com a visão distorcida. Vivem no mundo sensível, o das aparências, baseado em suposições e opiniões rasas. A liberdade deles corresponderia à saída da caverna, onde está o mundo inteligível, o das ideias. Os defensores das teorias da conspiração não pretendem saber mais, já têm todas as respostas, e perseguem quem os questiona. Mas, prisioneiros da caverna sensível, onde reina a ignorância, podem libertar-se. Leiam livros, estudem o tema, levem as vossas ideias a debate. A vossa condição não é fixa. É uma questão de se porem a caminho. O do conhecimento.

Nietzsche

As maiores teorias da conspiração foram criadas por filósofos. Platão e outros pensadores criaram “outros mundos”, que dão a ilusão de haver locais onde existe a perfeição, e inventaram “conceitos-múmia, ficções que enfraquecem os indivíduos e são uma renúncia à vida aqui e agora. Esses mundos, que só existem nas ideias, são inventados por quem não é capaz de viver no mundo real, o dos sentidos. E, para entrarmos neles, temos de definhar neste. É, portanto, por causa de uma deceção que nos distanciamos da vida e nos projetamos no erro. Devemos questionar esses fantasmas, que são as teorias da conspiração, e reavaliar constantemente as nossas crenças e valores, para promovermos um pensamento criativo, autêntico e livre. Procuremos novas formas de pensar e viver, que reflitam uma genuína e profunda afirmação da vida e da experiência humana. Abracemos o caos e a incerteza da existência, sem recorrer a respostas fáceis e conclusivas que os conspiradores nos querem dar. Sejamos autónomos, capazes de criar os nossos próprios valores, e afirmemos a nossa vontade de poder. O nosso objetivo deve ser a autoafirmação perante quaisquer ideias que nos queiram impor, sejam elas provenientes de forças poderosas desconhecidas, ou de conspiradores enraivecidos. Leiam O Único e a Sua Propriedade, do Max Stirner, porque foi de lá que tirei esta ideia. Como ele diz, vivemos rodeados de “fantasmas”, ideias e sistemas que não têm uma base concreta ou real. São conceitos abstratos que exercem controlo sobre o indivíduo e afastam-no do seu verdadeiro potencial. As teorias da conspiração, como qualquer ideologia ou religião, servem quem as cria, não o nosso interesse. Quem as desenvolveu, encontrou uma forma de convencer os outros que o seu objetivo era altruísta, e visava o bem comum. Mas, se os conspiradores chegassem ao poder, seríamos autónomos e livres? Deixo-vos uma frase que se aplica perfeitamente a este tema: “Todos têm uma ideia muito nobre para embelezar a causa de si próprios”.

Descartes

Não posso deixar de parte a hipótese de sermos marionetas nas mãos de poderes malignos. Mas, mesmo que a verdade não esteja ao meu alcance, uma coisa, apesar de tudo, depende de mim, acreditar naquilo que me tentam impor. Nada me impede de duvidar, sempre. Se essas entidades poderosas existirem, por mais astutas que sejam, não são capazes de me impor nada. Mesmo que abusem de mim, não podem impedir-me de negar-lhes a minha crença e, ao fazê-lo, da experiência interior do meu próprio pensamento. Esta é a ideia que apresentei nas minhas Meditações Metafísicas. Se quando sonhamos não sabemos que estamos a sonhar, como saber se tudo o que sentimos não passa de um sonho também? Se já acreditamos ser verdade algo que afinal não era, como garantimos que o que pensamos agora não é igualmente falso? Pelo prazer de pensar e de levar a cabo o meu raciocínio, coloquei a possibilidade da existência de um “Génio Maligno” que tenta impor-me, constantemente, ideias falsas. A partir dessa ideia, terei de estar sempre alerta, de duvidar de tudo em que acredito. Algumas das crenças que possuo, podem ter sido obra do esforço desse génio maligno que me tentou enganar. Sei que este pensamento se parece com uma teoria da conspiração, mas, ao contrário do conspirador, que acredita cegamente e não consegue impedir-se de aderir àquilo que sabe poder ser falso, na alegria da experiência cartesiana da dúvida, recuso-me a aderir àquilo que sei que é verdade, pelo simples prazer de questionar. E, “mesmo que tudo seja apenas ficção, pelo menos penso. E ao pensar, existo como algo que pensa.” Penso, logo existo.

Findo o exercício, diferenciemos. Se as teorias da conspiração promovem certezas e são alimentadas pela vontade de concluir, o pensamento filosófico encoraja a curiosidade aventureira sobre o funcionamento do mundo. Os filósofos projetam para o futuro vários cenários possíveis e disponibilizam o pensamento à sua própria contestação. Os conspiracionistas detém crenças enraizadas, voltadas para a simplificação do passado, e têm finalidades totalizantes. Se uma teoria filosófica se propagar, é possível que saiamos mais emancipados. Se as aspirações de uma teoria da conspiração se concretizassem, provavelmente todos pensaríamos o mesmo. No mínimo, aborrecido.

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Sem razão.

Em O Banquete, de Platão, Sócrates diz que o “erro surge por se considerar que o amor é aquilo que se ama e não aquilo que ama”.

Não cometer o erro significará, então, dizermos que o amor tem mais a ver com a forma como amamos do que com a pessoa que amamos.

Deve ser por isso que Barthes, nos seus Fragmentos, diz que “é o amor que o sujeito ama, não o objecto”.

Se não é a pessoa que amamos mas o nosso estado de enamoramento, porque razão desejo aquela pessoa e não outra?

Max Stirner responderia que “O amor do egoísta brota do seu interesse pessoal, corre para o leito do interesse pessoal e desagua de novo no interesse pessoal.” Em O Único e a sua propriedade.

Amamos quem queríamos ser, quem nos é útil ou quem nos satisfaz.

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