Fabiana Lopes Coelho Fabiana Lopes Coelho

A loucura do dia.

“Será a minha existência melhor do que as dos demais? É possível. Tenho um tecto, muitos não têm. Não tenho lepra, não sou cego, vejo o mundo, alegria extraordinária. Vejo este dia fora do qual nada existe. Quem me pode roubar isso? E eclipsando-se o dia, eclipsar-me-ei com ele – pensamento, certeza que me transporta.

Amei alguns seres, perdi-os. Enloqueci quando sofri o golpe, porque é um inferno. Mas a minha loucura permaneceu sem testemunho, o meu desvario não veio a lume, apenas a minha intimidade era louca. Por vezes, ficava furioso. Diziam-me: Por que estás tão calmo? Ora, eu estava a ferver dos pés à cabeça. À noite, calcorreava as ruas, gritava; durante o dia, trabalhava tranquilamente.

(…)

Com razão, sobreveio-me a memória e vi que mesmo nos piores dias, quando me cria perfeita e inteiramente infeliz, era, no entanto, e quase sempre, extremamente feliz. Esta descoberta não foi agradável. Deu-me que pensar. Parecia-me que estava a perder muita coisa. Interroguei-me: não havia eu estado triste, não tinha eu sentido a minha vida a rachar-se? Sim, tal acontecera; porém, a cada minuto, quando me levantava e corria as ruas, quando permanecia imóvel no canto de um quarto, a frescura da noite, a estabilidade do sol levavam-me a respirar e a repousar sobre a alegria.”

Maurice Blanchot, A loucura do dia, Snob.

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